Mind the…

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Foto: Gustavo Heldt, Mapa de Londres

Quem já andou de metrô em Londres sabe que, quanto mais pressa o sujeito demonstra, mais londrino ele parece. A ideia, então, é nunca ficar parado na escada rolante, e sim galgar cada degrau como se o segundo poupado pelo esforço fosse definitivo para a obtenção de um lugar no trem e a única chance de sobrevivência no subterrâneo.

Essa mentalidade, no entanto, acarreta algumas situações desastrosas. É comum, por exemplo, que homens de terno e pasta na mão usem a pasta para bloquear o fechamento da porta e, assim, buscar a pouco sorrateira entrada no trem já quase em movimento. Muitas vezes, a tática falha desastrosamente, a porta fecha mesmo assim e o homem de terno tem que sair correndo atrás da pasta, do trem e, depois, do funcionário do metrô, que vai lhe dar uma encarada altamente punitiva.

Nesse caso, o homem ajeita o terno, se lamenta, xinga o funcionário do metrô, olha para o relógio, verifica o estado da pasta, tadinha, e espera dois minutos pelo próximo trem. Ele não imagina que a pressa pode acarretar desastres muito, muito maiores.

Um deles eu presenciei hoje, nos primeiros minutos da madrugada de terça para quarta-feira. Depois de uma sessão de mais de 100 fotos de ônibus de dois andares em pontos estratégicos da Oxford e da Regent Street, guardei a câmera na mochila e rumei para a estação de metrô de Piccadilly Circus disposto a encerrar o dia de trabalho. Segui o caminho até o trem, entrei e sentei à frente de uma garota morena, que mexia em um iPad e guardava, aos pés, uma mala de rodinhas. Assim que o trem chegou a Holborn, notei que ela arregalou os olhos e guardou rapidamente o iPad em sua bolsa. Em um segundo, levantou-se, equilibrou a bolsa no ombro, puxou a alça da mala e correu em direção à porta, prestes a fechar. Conseguiu, pensei, antes de ouvir um barulho e espiar para trás, pela janela. Lá estava a mala, resoluta, em pé. A bolsa, porém, com o iPad aparecendo, jazia ao seu lado, no chão. E diversos centímetros distante da bolsa, encontrava-se a garota, prostrada. Ao seu redor, a vilã: uma poça de vômito.

Logo pensei em ajudá-la, pois ela tinha a mão posicionada no tornozelo e se contorcia de dor. Mas, quando levantei, já havia um grupo próximo, na plataforma. Um deles explicava o que ocorrera a um funcionário do metrô. Assim, me contive e voltei a me sentar. Olhei para o lado, certo de que todos no vagão estariam consternados pelo incidente. Mas me enganei. O que eu vi foi o seguinte: 1) Um casal de indianos brigando; 2) um homem de uns 40 anos, que poderia ser confundido com um mendigo se de fato não o fosse, que tinha a boca aberta, os olhos fechados e um ronco bastante grave; 3) um garoto com fones que não só tapavam suas orelhas, como cobriam quase toda a sua cabeça; 4) Uma mulher de nariz muito pontudo, que tinha os olhos estagnados em um ponto fixo.

Em poucos segundos, tive a certeza de que ninguém mais havia visto o lamentável escorregão da mulher apressada. Por isso, venho escrever este texto. Que fique o aviso: só se fala Mind the Gap porque muita gente já teve problemas com o Gap, e só se fala Mind the closing doors porque toda hora alguém fica preso na porta. Espero que a cena de hoje não se repita, senão você sabe o que vai acontecer. E Mind the Puke (ou the Vomit), imagina, não pega bem.

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