O trem parou

O trem parou

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Londres seria o próximo alvo. Após ataques na Espanha, a Al-Qaeda direcionaria sua atenção ao objetivo número 1 na listinha terrorista: Londres. Esse era o alerta dos especialistas, pelo menos. Todos deviam ficar atentos a mochilas desatendidas, pacotes suspeitos e barbas extravagantes.

Para o clima de medo, colaboravam as notícias diárias de que estações de metrô haviam sido evacuadas, trajetos de ônibus podiam ser alterados e aeroportos seriam preenchidos por policiais à paisana, militares munidos de armas pesadas e cães plenamente atendidos por oficiais em busca de qualquer odor iminente de destruição.

Alguns alarmistas recomendavam que não se saísse de casa, e outros, que não se usasse o transporte público. Eu fazia as duas coisas. Enquanto essa aura de apreensão recobria a cidade, eu me aventurava pelo underground.

Até que, em uma sexta-feira, após a aula de inglês, minha admiração pelo tube foi suspensa subitamente. E com ela, o próprio trem, que parou sem aviso, entre as estações Bank e Liverpool Street. A parada brusca não gerou angústia tão grande assim. Na verdade, estas linhas se devem ao que aconteceu logo após o trem parar: todas as luzes foram desligadas, e uma voz anunciou: este trem permanecerá aqui por tempo indeterminado.

O aviso era sucinto – e amedrontador. Em um período menos tumultuado, um trem parado poderia ser explicado por uma simples falha no sistema elétrico do underground mais antigo do mundo, por uma confluência desarrazoada de trens em um pequeno espaço ou, na pior hipótese, por um suicida estirado sobre os trilhos. Naquele momento, no entanto, ninguém imaginou esse tipo brando de empecilho: tinha uma bomba na estação seguinte, e nos fizeram parar aqui antes que ela exploda.

Entre murmúrios preocupados e gritos de crianças, que, suspeito, captaram o desespero silencioso dos passageiros adultos, a principal questão que se imiscuía na imaginação de cada um ali era de que estávamos perto demais da estação seguinte. Aquela, lembra? Que seria destruída minutos depois por uma bomba terrorista.

O incauto pode achar exagero. Mas ao longo dos 150 anos de história do metrô, muita coisa ruim aconteceu. Destruições diversas, inclusive: incêndios, bombas, assassinatos e suicídios. E ninguém ali, confinado em um vagão escuro, açulado pelos rumores das senhoras mais criativas, confuso pelo falatório em sete idiomas diferentes, preocupado por um barbudo que parecia tranquilo demais no banco da frente, sem perspectiva de fuga ou – haha – luz no fim do túnel, queria virar personagem de mais uma história de terror.

Como você, querido leitor, pode antecipar – já que vivi para narrar -, o terror acabou logo. Ao todo, essa incursão pelos meandros mais catastróficos do campo de possibilidades durou menos de 30 minutos. A percepção, a uma distância segura da razão, transparecia bem mais: mentalmente, tínhamos ficado horas parados no escuro, à espera do nosso destino final. Por sorte, o destino final se chamava Mile End, ali pertinho.

Liverpool Street foi mesmo evacuada. Só que a mala desatendida não tinha nada mais apavorante do que uma porção de cuecas sujas. Psicologicamente, o terrorismo venceu.

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