Execuções públicas já foram atração turística em Londres

Execuções públicas já foram atração turística em Londres

4

Lei da Bandeira VermelhaA Era Vitoriana, nome dado ao período em que a Rainha Victoria ocupou o trono britânico, de 1837 a 1901, tinha diversas peculiaridades. Há exemplos amenos, como a Lei da Bandeira Vermelha, de 1865. Ela obrigava que, à frente de todo automóvel em locomoção, houvesse um homem tremulando uma bandeira vermelha, a fim de alertar da máquina letal que se aproximava (a 3 km/h!). Outros exemplos são um pouquinho mais assustadores, como as execuções públicas, então verdadeiras atrações turísticas de Londres.

Mostrar aos súditos o destino trágico de quem descumpria a leia compreendeu um capítulo longo da história britânica. Do século 12 ao século 17, a London Bridge era tomada por cabeças de prisioneiros executados em Tower Hill e em prisões da cidade.

No século 19, o intenso incremento da população reduziu as condições básicas de vida e elevou as taxas de crimes. Do início ao fim do século que posicionou a Inglaterra como principal potência mundial, a população londrina passou de 1 milhão para 6 milhões de pessoas. Até por volta de 1840, muitos tipos de crime, como falsificação e roubo, levavam à forca. Aos poucos, os critérios para a pena de morte foram alterados, e a maioria absoluta dos crimes passíveis de execução eram assassinatos. Assim, de 1800 a 1899, houve quase metade das execuções do que no século anterior: apenas 3.537 ingleses e galeses.

Execução em Tyburn
Execução em Tyburn

Independentemente do crime cometido pelos condenados, esses eventos constituíam-se de entretenimento para milhares de espectadores. A agência de turismo Thomas Cook, que existe ainda hoje, organizava excursões de trem para os enforcamentos. Os indivíduos mais abastados reservavam salas com vista para os locais de execução, especialmente na prisão de Newgate. Para obter uma visão ainda mais acurada do espetáculo de horrores, as senhoras usavam seus monóculos do teatro. Lá do alto, elas ouviam as cantorias dos bêbados, as piadas sobre os condenados e ficavam em segurança enquanto o clima de euforia tomava conta da turba. E não eram apenas adultos que se reuniam para assistir aos enforcamentos. Há registros de excursões escolares até o local das execuções públicas a fim de “educar os alunos” sobre os perigos de ir contra a lei.

Newgate prison
Em Newgate Prison

Em 1849, o escritor Charles Dickens, que escrevia David Copperfield na época, somou-se a 30 mil pessoas para assistir ao enforcamento de Frederick e Marie Manning em Horsemanger Lane Gaol, em Londres. Ele ficou tão apavorado com a execução quanto com a reação das pessoas, absolutamente empolgadas com o acontecimento. Em carta para o jornal The Times, ele descreveu a execução, narrou a reação da multidão e condenou o espetáculo. Diz-se que a escolha de cetim preto na indumentária de Marie Manning levou ao descarte dessa roupa entre as senhoras que buscavam estar na moda.

Museu de Charles Dickens - Mapa de Londres
Carta de Dickens ao Times

Fui testemunha da execução em Horsemonger Lane nesta manhã(…) Acredito que a visão foi tão inconcebivelmente terrível quanto a maldade e a leviandade da multidão reunida na execução”, escreveu Charles Dickens.

A carta não foi o suficiente para que as execuções públicas fossem banidas. Em 1864, inclusive, foi impresso pela primeira vez um jornal que tinha, como um de seus principais focos, os enforcamentos. O Illustraded Police News narrava os episódios, apresentava desenhos detalhados e anunciava os próximos eventos do tipo. Mesmo assim, a partir da década de 1860, as camadas mais ricas da sociedade passaram a condenar esse tipo de programa cultural.

Old Bailey
Old Bailey ocupa parte do local onde ficava a prisão de Newgate. Foto: MdL

A última execução pública da Inglaterra ocorreu em maio de 1868, quase 20 anos depois da carta de Dickens, do lado de fora da Newgate Prison, em Londres. A prisão, que funcionou de 1188 a 1902, situava-se na esquina da Newgate Street com a Old Bailey, na City of London, bem onde ficava o Newgate, portão da London Wall romana. Quem perdeu a cabeça foi Michael Barrett, membro da Fenian Brotherhood (organização política que lutava pela independência da Irlanda), condenado por participar de um bombardeio para liberar colegas irlandeses da prisão.

Uma execução no início do século 19

Na véspera da execução, a forca é levada por uma equipe até a frente do portão de Newgate. Assim que avistam a forca, curiosos e entusiastas das execuções começam a se reunir no local. Nos casos mais notórios, os espectadores ricos pagam até 10 libras (na época, uma fortuna) para assistir ao espetáculo de uma janela com boa vista e assento confortável. No início da manhã, jornais circulam pelo local com detalhes do evento e até os últimos dizeres dos presos. Sim, quase toda publicação que circula pelos locais de execução é completamente falsa.

Por volta das 7h30, os presos condenados são levados de suas celas até uma outra sala, onde o xerife e o capelão da prisão os encontram. O carrasco e seu assistente, então, amarram os pulsos dos condenados. Em torno de 7h45, o sino da igreja de St. Sepulchre começa a tocar (sinal para que os presos sejam levados ao pátio) e, então, para a plataforma. Ouvem-se berros, urros, palmas, cantorias e piadas. Um dos gritos mais ouvidos nessa hora é “Hats off“. A frase tem o objetivo de dissuadir o pessoal da frente de usar o chapéu, que atrapalha a visão dos convivas situados nas fileiras de trás.

Com o apenado devidamente posicionado na forca, o carrasco coloca um lenço em seu pescoço. Nesse momento, o capelão faz uma oração pedindo o perdão divino daquela pobre alma. A oração finda e, com ela, a vida do condenado. O prisioneiro se contorce, tem convulsões, mostra a língua. Alguns resistem à morte.  Nesses casos, o carrasco puxa suas pernas para apressar o processo. Depois o corpo fica exposto no local durante uma hora para escrutínio do público.

Atualmente

A Newgate Prison, onde muitas das execuções públicas eram realizadas, não existe mais. No local, encontra-se hoje a Old Bailey, o corte criminal de Londres. Felizmente, não há mais execuções públicas. Mas você pode acompanhar um julgamento criminal ao vivo e conferir de perto o sistema judiciário do Reino.

Tyburn Tree
Pertinho de Marble Arch, pedra marca local da forca de Tyburn

Já a Tyburn Tree, onde foram enforcados personagens célebres da história de Londres (como o líder da revolução que levou o Rei Charles I à forca, Oliver Cromwell, o qual foi enforcado simbolicamente, já morto), situava-se hoje pertinho de onde hoje está a Marble Arch. Hoje é possível ver uma pedra no local que lembra onde antes ficava a temida forca.

Outro local de execuções, a Tower Hill pode ser visitada na saída da estação de mesmo nome. Ali ao lado, a Torre de Londres reúne muitas histórias de execuções (não públicas), inclusive de esposas do Rei Henry VIII.

Leia também

Tour do Jack, o Estripador

Tour Londres Mal-Assombrada

Lei da Bandeira Vermelha

Museu de Charles Dickens

A Londres de Sherlock Holmes

Sherlock Holmes Pub

Museu do Sherlock Holmes

Nosso e-book com 7 dias de atrações em Londres:

pequeno-cta-roteiro-do-mapa-de-londres

Deixe seu comentário

4 comentários

  1. […] Enforcamentos eram verdadeiras atrações turísticas de Londres na Era vitoriana. Agências de turismo faziam excursões de trem para os locais de execução. Para uma visão melhor, as senhoras ricas usavam seus monóculos do teatro. Até escolas mandavam os alunos para assistir de vez em quando àquele espetáculo horroroso, para que aprendessem o perigo de ir contra a lei. […]